
A bariátrica promove alterações hormonais e metabólicas que contribuem para o controle do diabetes e de outras comorbidades associadas à obesidade antes mesmo da perda expressiva de peso
Antes com indicação quase exclusivamente restrita à perda de peso, a cirurgia bariátrica, que reduz o estômago, é hoje reconhecida como uma poderosa ferramenta de reestruturação hormonal.
Ao alterar a anatomia do trato gastrointestinal, ela desencadeia mudanças sistêmicas, capazes de colocar várias doenças crônicas em remissão, como o diabetes tipo 2, distúrbio que tem tratamento cirúrgico normatizado pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) para casos específicos desde 2017.
“A maioria dos pacientes que utilizam medicamentos antidiabéticos via oral consegue suspender completamente o uso já no primeiro dia após a cirurgia”, afirma César De Fazzio, especialista em cirurgia do aparelho digestivo.
O médico explica que o procedimento promove uma modificação imediata na secreção de hormônios que são responsáveis por estimular a produção de insulina pelo pâncreas e melhorar a resposta celular a essa substância. “Essa regulação otimizada reduz a resistência à insulina, diminui a inflamação sistêmica característica da obesidade e reequilibra o eixo metabólico como um todo“, esclarece.
O resultado é uma melhora significativa não apenas no metabolismo da glicose, mas também no controle da hipertensão arterial e na regulação do perfil lipídico, estabilizando o LDL, conhecido como colesterol ruim, e os triglicerídeos.
Segundo De Fazzio, outros problemas prolongados de saúde relacionados à obesidade que apresentam regressão expressiva com a cirurgia bariátrica são a esteatose hepática não alcoólica, chamada popularmente de fígado gorduroso; Síndrome dos Ovários Policísticos (SOP), com a regulação dos hormônios sexuais, restauração dos ciclos menstruais e aumento das taxas de fertilidade em mulheres; doenças articulares e ortopédicas, aliviando a sobrecarga e aumentando a mobilidade em alguns casos; refluxo gastroesofágico; asma e problemas respiratórios; incontinência urinária, com a menor pressão intra-abdominal; e apneia obstrutiva do sono.
Metabolismo equilibrado antes da balança
Um dos aspectos mais surpreendentes para os pacientes é a velocidade com que os benefícios metabólicos se manifestam. De acordo com o cirurgião bariátrico, a evolução favorável dos índices de saúde ocorre muito antes de uma perda de peso acentuada. A apneia obstrutiva do sono, por exemplo, apresenta regressão notável em cerca de 20 a 30 dias após a intervenção — período em que o paciente eliminou apenas aproximadamente 10% do seu peso inicial. “Esse fenômeno reforça que a resolução da apneia está intrinsecamente ligada à melhora do controle hormonal e à redução da inflamação sistêmica, e não apenas à redução do volume de tecido adiposo”, pontua De Fazzio.
Taxas altas de triglicerídeos geralmente levam de dois a três meses para normalizarem, mas outras condições exigem um espaço de tempo maior para a remissão completa, podendo levar até seis meses, como é o caso de níveis elevados de colesterol LDL e ácido úrico. “Resumindo, a cirurgia bariátrica e metabólica atua como um tratamento sistêmico e multifatorial. Ao corrigir os desequilíbrios hormonais e metabólicos, ela não apenas promove a perda de peso, mas devolve a saúde e a qualidade de vida ao paciente, tratando a obesidade e suas comorbidades de forma integrada e duradoura“, conclui.
Por Redação
